domingo, 12 de agosto de 2012

Um pouquinho da Grécia...

"A hospitaleira Creta", por Fernanda Cury
Quer um lugar para ser tratado como um rei? Pois então vá à Creta, a ilha conhecida pela lenda do Minotauro. Mas vá com tempo, pois ela é muito extensa e, mesmo alugando um carro, você vai levar ao menos cinco dias para conseguir ver alguma coisa.
Digo isso por experiência própria, pois como tínhamos pouco tempo (apenas dois dias e meio), tivemos de fazer escolhas entre praias, cidades históricas, serras, desfiladeiros e a própria capital (Irákleio), onde ficamos hospedados.

De qualquer forma, não deixe de conhecer a cidade de Réthymno, que ainda é a capital intelectual de Creta, e delicie-se andando pelas ruelas do bairro antigo, que ainda guarda exemplos tanto da arquitetura veneziana e otomana. Encha os olhos (e a boca, de água), com as inúmeras parreiras espalhadas pelo caminho.

Visite a fortaleza veneziana que servia para proteger a cidade dos ataques dos piratas, inclusive do famoso e temido Barba Roxa, e dos turcos. Suas muralhas estão quase intactas e guardam as ruínas de uma igreja, uma mesquita, as dependências do governador. E se tiver sorte, pode ser agraciado com um concerto ao ar livre, em um pequeno teatro.

Quando bater aquela fome, experimente o menú especial da dona Cecília Prada, uma boliviana que se mudou para a ilha com a família, montou um restaurante grego, mas morre de saudades da América Latina. Ela contará toda a saga da família, falará mal da atual educação grega, contará da tradição familiar de tomar vinhos todos os dias, servirá o destilado oúzo e depois lhe presenteará com uvas de sua própria parreira. Vale à pena reservar algumas horas apenas para jogar conversa fora e fazer essa troca cultural.
Depois, vá tomar um sorvete, ou um café em algum dos barzinhos ao longo do porto de Réthymo, ou de frente para o mar, e aproveite para observar pessoas de todos os cantos do mundo, aproveitando as férias de verão. Perceba a atmosfera mágica do local... Persiga a noiva pelas ruas, para assistir a um casamento grego e páre ao escutar uma música diferente, vinda de um instrumento parecido com o violino... São momentos preciosos e únicos para apreciar a cultura local.
Voltando à capital, visite o museu arqueológico de Irákleio, com sua coleção de artefatos minóicos, que permitem que conheçamos um pouco da civilização que viveu em Creta há mais de 3000 anos. Aprecie os vasos trabalhados, os afrescos (que na verdade eram de Cnossos), as jóias, os machados e esculturas lá guardadas.
Também guarde um tempo para conhecer o Palácio de Cnossos, que era o maior e mais sofisticado de toda a ilha de Creta e que escondia um labirinto subterrâneo, onde estaria aprisionado o Minotauro (meio touro-meio homem, gerado pela mulher do rei Minos e morto por Teseu), e que dá uma idéia de como era a vida de Creta no período minóico.
E não se esqueça de reservar um tempo maior para essa ilha. Assim você me conta sobre as outras maravilhas que perdi.


"A cidade antiga de Rodes", por Fernanda Cury

Para quem quer fazer um passeio no tempo e voltar para a Idade Média, não é necessário se arriscar em nenhuma máquina do tempo. A dica é arranjar tempo e dinheiro para fazer uma visita inesquecível à cidade antiga de Rodes, uma das ilhas que fica no Dodecaneso.

Trata-se de uma cidade construída pertinho do porto e toda cercada por muralhas. Quando a vi pela primeira vez, senti uma emoção tão forte que não consegui me conter: chorei como se fizesse parte do passado daquele local...

Quando atravessei os imponentes portões e subi a Rua dos Cavaleiros, que fica entre o porto e o Palácio dos Grãos-Mestres, e abriga a hospedaria de sete nacionalidades, imaginei-me como um dos cavaleiros da Ordem de São João, montado em seu cavalo, com a sua armadura, pronto para lutar contra os "infiéis" nas Cruzadas. Depois, assumi novo papel, como uma "moçoila" apaixonada, vestida ao estilo medieval, vendo meu cavaleiro partir, sem saber se o encontraria novamente.

Sei que são "viagens" de uma mente insana, mas Rodes lhe permite perder a cabeça e imaginar o que bem entender... Subir as grandes escadarias do Palácio dos Grãos Mestres, uma verdadeira fortaleza dentro da fortaleza, que reunia a cúpula dos cavaleiros, é como fazer parte de toda História. Dentro do Palácio, encontramos inúmeros mosaicos do período helenístico, móveis, esculturas, lustres e até mesmo as vestimentas utilizadas pelos cavaleiros medievais.

Provavelmente a cidade já foi o cenário de muitos filmes e é conhecida porque abrigou, durante um tempo, uma das sétimas maravilhas do mundo: o colosso de Rodes (derrubado por um terremoto em 227 a.C.).


Quem conseguir ir à Grécia, faça uma visita à essa ilha que, apesar de não fazer parte dos roteiros mais "batidos" é imperdível... E não deixe de conhecer, também, nessa mesma ilha, a cidade de Lindos (leste), que não pelo nome, mas pelas belezas naturais e pela acrópole, é um dos lugares mais "lindos" que eu já vi.


Ah! E dispense o "burrinho". Além de não judiar do bichinho, você vai curtindo um pouco mais a paisagem e a cultura local, que é muito rica e diferente... Depois, guarde um tempinho para tomar um solzinho na praia, namorar no mar transparente, de um azul sem igual, e comer um peixe no final da tarde (só que peça o cardápio, porque o "italiano" não é fácil).

Boa viagem!

"Palestra de Ronaldo Fraga", por Fernanda Cury


A palestra de Ronaldo Fraga, que aconteceu na última quarta-feira, dia 17 de setembro de 2008, na Universidade Anhembi Morumbi, veio a confirmar o que eu sempre afirmei em relação à Moda: ela é uma forma de expressão e, como tal, não deve apenas fazer apenas releituras, mas também reescritas.

De fato, está mais do que na hora de as pessoas perceberem que não há mais sentido em reproduzirem uma moda-fútil, uma moda-vazio, uma moda-tendência, uma moda-cópia, uma moda-burra. Afinal, há muito a se dizer, a se pensar, a se discutir...

O Brasil é um país que tem uma cultura (ou melhor, culturas no plural) riquíssima, e tão pouco estudada, pesquisada, refletida, mostrada. Temos a chance de mergulhar em nossa história, em nossa literatura, na nossa arte, nas nossas crenças, nas características herdadas de uma globalização antecipada, que foi a miscigenação, mas muitos designers se voltam para o exterior, valorizando e, pior, imitando o que vem de fora, sem nenhuma questionação.

Fico feliz ao perceber que já existem na Moda pessoas como Ronaldo Fraga, que "pensam" a Moda e a utilizam como forma de se posicionar no mundo, como forma de criticar, de cutucar, de provocar o pensamento, os sentimentos e as sensações.

De fato, a Moda pode ser o veículo de discussão de qualquer questão apresentada. Pode falar de amor, de ódio, de alegria, de tristeza, de prazer, de dor, de ilusões, de desilusões, de crenças, de descrenças. Pode falar de política, economia, sociedade. Pode falar de poesia, de música, de exploração, de guerra e até mesmo do "nada".

Trata-se de um instrumento poderoso. Tão poderoso quanto as palavras, em um mundo onde, contemporaneamente, imperam as imagens. Por isso, deve ser usado de forma ética, consciente, inteligente e responsável.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O universo feminino da Huis Clos.






Sara Kawasaki, estilista da marca Huis Clos, trouxe à passarela um baile de máscaras, inspirado nos signos que povoam a alma feminina e todas as questões indissociáveis do universo das mulheres.
A complexidade destes seres de "Vênus" veio mostrada através de uma escolha muito ajustada de tecidos que primam pela qualidade (renda, lã, brilhos de cristal, lamê, malha lamê, naylon). Esses materiais se misturavam nas diversas peças, criando texturas distintas e recortes geométricos, trazendo uma coleção muito contemporânea que mescla referências esportivas, fetichistas e de alfaiataria, em uma única peça.
Foi um desfile elegante, mas, ao mesmo tempo jovial, que trouxe volumes mais pronunciados na parte de cima (tronco e mangas), equilibrados por shorts curtos e justos, calças e vestidos bem confortáveis, que mesclavem a matéria prima nas cores preto, cinza, arroxeado e esverdeado, sob a trilha sonora de Max Blum.

Reconstrução de Brasília por Maria Bonita.




Para se criar uma identidade própria para a moda brasileira, nada melhor que utilizar como ponto de partida (entenda-se: objeto de pesquisa), a rica e diversificada cultura de nosso próprio país.
É o que indica o desfile da marca Maria Bonita, que utilizou como fonte de inspiração para a sua coleção de inverno 2011 a cultura material e imaterial dos nordestinos e dos demais trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília, nos anos 1950.
Nada óbvio, a simplicidade dos denominados "candangos" veio materializada através das formas das peças. Suas maletas com ferramentas de trabalho e as marmitas, vieram decodificadas nas carteiras e bolsas acopladas às roupas da marca, trazendo inovação e funcionalidade.
Mas a simplicidade também se traduziu nos materiais naturais e simples utilizados na confecção do vestuário: malhas confortáveis, flexíveis e impecáveis, misturando as cores retiradas da terra, do céu e das construções de Brasília (tons terrosos, azuis e cinza).
Outro elemento da cultura imaterial reinterpretado pela coleção foi a sensualidade da mulher brasileira, que aparece, de forma muito sutil, sem absolutamente nenhuma vulgaridade. Algumas peças revelam costas e braços nús, em decotes nadador, outras trazem pequenos recortes vazados, que mostram a pele e o colo, a cintura é apenas insinuada no modelo marrom, as pernas aparecem em transparências discretas.
Enriquecendo ainda mais seu trabalho, a marca não poderia deixar de trazer também um pouco da arte de Athos Bulcão, que também serviu de inspiração para as criações de Ronaldo Fraga. Seus azulejos, os desenhos triangulares criados para o museu e a placa de metal do plenário do Senado vêm traduzidos através de recortes e desenhos em looks resinados.
As formas, as cores, os recortes, os materiais, a cenografia (tapumes de madeira) e a música "desfilados" (Construção, de Chico Buarque), tudo demonstra que a cultura brasileira pode servir de alimento para a criação de produtos com cara e alma brasileiros.




















quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Animale menos animal.



A estilista Raquel Zimmermann deixou um pouco de lado o apelo sexy da marca e as estampas de bichos que sempre povoou suas coleções, criando peças que equilibram a sisudez do couro, da alfaiataria e da geometria com a fluidez, o movimento e delicadeza de tecidos como a organza de seda, utilizada principalmente em saiotes e blusas.
O couro simboliza justamente as selas, fonte de inspiração da coleção, que se delineia nos quadris, aplicados às calças, às calças e aos shorts, lembrando ancas sobrepostas, e se transforma em peças que, de frente, parecem coletes e, de costas, blusas. Esse material, ainda, cortado em tirinhas, mostra-se muito delicado e criativo ao formar um vestido longo verde petróleo. As tramas, ora mais abertas, ora mais fechadas, do tricô, criam texturas e transparências.

A coleção tem início com o chique off white, passa por tons de ocre, marrom e vai ganhando cores como a ferrugem, o laranja, o amarelo e o verde petróleo, encerrando com alguns looks em preto.
A estilista conseguiu, utilizando um mix diferenciado de materiais (lã, couro e organza), que faz parte de sua marca registrada, obter texturas e formas que se apresentaram de forma equilibrada e contemporâneas, tornando a mulher mais clássica e elegante.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A moda inteligente de Ronaldo Fraga.



Ronaldo Fraga, que já fez uso da moda para tratar de tantos assuntos (literatura, música, artesanato, cultura, sociedade, sustentabilidade), neste inverno/2011, mergulhou no universo do artista Athos Bulcão, que presenteou os espaços públicos de Brasília com suas obras gráficas e abstratas, bem representativas da cultura brasileira. Transitou não apenas por seus desenhos, azulejos, mas trouxe um pouco da memória do modernista nacionalista.

Isso tudo torna-se evidente não apenas nas peças apresentadas no desfile, mas na própria cenografia, carregada de informações, que traz um mix de azulejos suspensos no ar, ao lado de ilustrações do estilista, imagens da infância de Athos, fotos do carnaval do Rio de Janeiro dos anos 1920 e da efervescência modernista dos anos 1950, o que, de alguma forma, possibilita que tenhamos acesso à parte da árdua pesquisa teórica e iconográfica realizada por este designer de moda.

Em entrevista concedida ao Roda Viva, na noite de ontem (31.jan.2011), Ronaldo, que sempre encanta com suas apresentações inusitadas e ultra-criativas, confirmou ser avesso aos "espaços brancos", pois acredita que os cenários criados também são instrumentos a serviço deste contador de histórias. A cartela de cores, os tecidos utilizados, os jacquards, as estampas da coleção intitulada "Athos do início ao fim", tudo serve de material para que Ronaldo, de forma poética, possa reescrever um pouco acerca da trajetória do artista plástico.

A coleção veio pincelada em tons de laranja-tangerina, azul "céu de Brasília", cinza concreto modernista, pelo branco e pelo preto, e materializou-se em jacquards de algodão (criados com inspiração nas fotos nostálgicas, mas muito alegres, do carnaval carioca), no linho, no tafetá, no algodão resinado, na seda e no tule. Tais tecidos davam sustentação às formas retas, amplas e geométricas, muito bem trabalhadas, ora com pregas, ora com dobras, com um pequeno recorto aqui e acolá. Peças que eram ora vestidos, ora túnicas, mas expressavam o lado lúdico das crianças.

Se o objetivo de Fraga era reconstruir o universo de Athos Bulcão, o estilista, mais uma vez, cumpriu muito bem a sua função, pois sua coleção consegue dar cor e forma, à vida e à obra do artista. Novamente, muito generoso, traz para moda mais um pouquinho da cultura brasileira.